Ó Bolhão, Bolhão, que vida é a tua...



São 8h da manhã. Na rua Fernandes Tomás ouve-se o barulho dos carros, os atropelos das
pessoas, o tempo não pára… A vida na metrópole é uma verdadeira azáfama.
Ao fundo, entre a música dos Orchestral Manoeuvres in the Dark ouve-se o regatear das
peixeiras: O Bolhão está à vista.



“Oh menino Luís arranje-me este guarda-chuva”. Uma senhora de meia-idade irrompe
apressada pela entrada Norte do Bolhão. O dia está nublado, avizinha-se um dia de chuva.
Luís Fernandes, 25 anos, é amolador de profissão, mas nos dias chuvosos, são muitas
as pessoas que lhe pedem para consertar os guarda-chuvas. É o primeiro comerciante que
encontramos. Junto à portaria, com a companhia do Sr. Adão (responsável pelo mercado), Luís
Fernandes arranja facas, tesouras, machados e também vai “dando um jeito” a uma ou outra vareta.
Luís começou por ir com o pai para o mercado ver como era o trabalho. Tinha apenas
10 anos. “Só comecei a trabalhar efetivamente aos 13 anos, nos primeiros tempos só via como
o meu pai fazia, depois comecei por aprender e aperfeiçoar o trabalho”, afirma.

Atualmente, várias profissões caíram em desuso e a arte da amolação não é exceção,
sendo o jovem Luís um dos poucos que resiste. Embora seja um oficio quase extinto, as
pessoas não se esqueceram desta arte e continuam a procurá-la muito. “Há muita procura não
há é quem faça, a maioria das pessoas vêm cá no fim do mês ou no início do mês. A meio já
enfraquece mais um bocadinho”, diz o artesão acerca da afluência de clientes.
De forma a tentar combater a pouca oferta de amoladores na cidade, inseriu-se no
Programa Manobras no Porto 2012 a “Reboloção!”. Esta ação nasceu com o intuito
empreendedor de combater o desemprego, criando novos postos de trabalho e uma maior
oferta de amoladores. Luís Fernandes, com os seus “12 anos de experiencia” aceitou ser o
formador da mesma que teve “todas as vagas preenchidas”.
Continuando a visita pelo Bolhão, descemos a escadaria central até ao piso inferior. Os
vários cheiros vão-se misturando e entranhando-se nas roupas. O peixe, o cheiro de azeitonas
e tremoços em água, o pão acabado de fazer, os arranjos florais e as várias bancas de fruta
criam um aroma peculiar. O Bolhão apresenta-se como um local um tanto ou quanto
desorganizado, mas onde reina uma calma inexplicável e onde as paredes parecem brotar história.
A Dona Balbina trabalha no Bolhão há 35 anos a vender artesanato de madeira, limões e alhos “coisinhas assim para ir levando a vida”.

A vida no mercado é muito tradicional, as pessoas tratam-se como família, falam dos
seus problemas, compram os produtos que necessitam entre si, repartindo assim o lucro.
“Somos uma família, damo-nos bem! Eu compro peixe ali, e ela compra-me flores a mim”,
comenta Maria Teresa, florista há 27 anos. Numa das bancas ao lado da florista, a Dona Alice e a Dona Ana Maria já se encontram a atender os clientes habituais. «A quanto está a faneca hoje?»,
pergunta um cliente. «A faneca hoje está um bocadinho cara. Está a 5€ para você», regateiam.
Acordam às 5h da manhã para ir comprar o peixe fresco. Chegam ao Bolhão às 6h30min, mas é como se tivessem acabado de chegar. Têm uma alegria contagiosa. Talvez seja porque já trabalham há 45 anos
no mercado e conhecem todos os seus recantos que não se cansam do seu trabalho. “É uma
alegria trabalhar no Bolhão, a gente até sai daqui mais bem-disposta. Somos uma família”,
aponta a Dona Alice.
Apesar das condições de extrema degradação do mercado centenário, este continua a
ser muito visitado. Tanto turistas, como clientes habituais frisam a riqueza cultural do espaço,
a boa disposição e a atenção dada a cada um dos clientes como os pontos fortes.
Quanto à degradação do Bolhão e da intenção de transformar o espaço num centro
comercial, a dona Alice diz que “é preciso umas obras, mas o Bolhão é o Bolhão e o Bolhão é
do Povo. Já fez mais de 120 anos, por isso não vai deixar de ser Bolhão”.
António Morais, ex-trabalhador do Bolhão e agora cliente, comenta que “está tudo a
cair”. Observando a estrutura do mercado, este está dividido em dois pisos, sendo que no piso
inferior se situam as bancas da peixaria, das floristas, do pão e das frutas e no piso superior
estão as bancas de legumes e os talhos. Quanto às fachadas do Bolhão há a salientar uma
arquitetura neoclássica de outrora, que hoje em dia está segura por andaimes.

Percorrido o piso inferior voltamos a subir desta vez pelas escadas laterais, deparando-
nos assim com as bancas dos legumes. Na segunda banca à esquerda, vendem dona Maria Emília e sua mãe Albina Rosa da Silva. A dona Rosa trabalha no Bolhão desde os seus treze
anos, sempre a vender legumes.
“O Bolhão é a coisa mais linda que tem no Porto e no Mundo” afirma Dona Rosa, com as
lágrimas no rosto. Esta recorda com muito carinho e saudosismo os anos passados no
mercado. "Há 70 anos era tudo pobrinho, agora é tudo rico", é assim que relata o facto de os
clientes já não terem a afluência que tinham há umas décadas atrás. Antes, cozinheiras de
restaurantes, e donas de casa tinham como paragem obrigatória o mercado do Bolhão, logo
pela manhã. Hoje em dia as pessoas vão ao Bolhão comprar algum peixe, fruta ou pão que lhes
falta à última da hora. A maior parte das compras são feitas nos hipermercados, dando o lucro
aos ricos. Como diz, a filha, Maria Emília, que trabalha no Bolhão desde “a barriga da mãe”, "as
pessoas que vão aos supermercados não sabem nada! Aqui vêm as pessoas que sabem, que
nós aqui só temos legumes frescos e portugueses".
Continuando a conversa fica-se a saber a opinião de dona Rosa e da dona Emília
acerca da intenção de fazer do mercado um centro comercial: "se "botarem" abaixo o Bolhão
nunca fazem um igual, depois não fazem nada disto… Depois fazem uma caçoleta qualquer",
afirma dona Rosa. Já a dona Emília diz que o Bolhão, "mesmo velhinho é um local bonito". "É
local de trabalho dos pobres" e trabalhar no Bolhão é “uma vida alegre e saudável". Nenhum
dos comerciantes quer que o mercado seja transformado num centro comercial, pois na
opinião dos mesmos vai-se perder “o encanto e muitos postos de trabalho”. Alcino Sousa, dono de um talho no andar superior e membro da Associação de Comerciantes do Mercado do Bolhão (ACMB), trabalha no mercado desde 1979. "Ao Bolhão vem de tudo um pouco… É evidente que o Bolhão não tem atração nenhuma. O Bolhão necessita de obras, o Bolhão precisa de obras e era necessário que alguém olhasse para o mercado do Bolhão. Já estamos à espera de obras desde 1988". É assim que Alcino relata a urgência em restaurar o mercado.
Entretanto entra um cliente no Talho que se junta à conversa e nos diz que o Bolhão "é
uma coisa tradicional, é uma coisa histórica. Acho que se deve respeitar. É pena que esteja
tudo degradado. Tudo quase a cair! Isto qualquer dia poder dar uma catástrofe! É pena chegar
a este tipo de situação.".
Alcino, como representante da ACMB, conta que já dirigiu cartas aos mais variados
órgãos políticos, “ao Presidente da Câmara Municipal do Porto, ao Primeiro-Ministro, ao
Presidente da República, aos líderes parlamentares com acento na Assembleia da República,
ao secretário de Estado da Cultura, ao IGESPAR, ao Ministro das Finanças e da Economia.
Ninguém tem pena dos comerciantes”.
Apesar de algumas visitas de líderes partidários ao mercado do Bolhão, nada há para
reabilitar o mesmo, a estrutura continua mais frágil a cada dia que passa, os vários andaimes
que compõem o panorama geral do mercado foram colocados para segurança de clientes e
comerciantes, para tentar “aguentar o mercado mais uns dias”.
O "Bolhão é o ex-libris da cidade do Porto. Tem mais de 100 anos de vida, deu mais de
100 anos de cultura, deu mais de 100 anos de muito lucro a muita gente, incluindo ao Estado
Português, à Câmara Municipal… Só que infelizmente os políticos esquecem-se", recorda
Alcino Sousa.

Continuando a demonstrar a sua desilusão com o estado a que os órgãos políticos
deixaram chegar o mercado do Bolhão, o Sr. Alcino partilha um excerto da carta que enviou às
várias entidades: “O mercado do Bolhão está no centro da cidade do Porto, é visitado por
muitos turistas. Qual é a imagem que os turistas levam da minha querida cidade do Porto e
deste meu Portugal? A desgraça e a ruína. E eu faço esta pergunta: Não temos vergonha de
apresentar ao Mundo a desgraça e a ruína?".
Em gesto de apelo, Alcino Sousa acabou por desabafar que caso não hajam verbas nem
da Câmara Municipal do Poto, do Governo nem da União Europeia “os comerciantes irão
avançar com um peditório a nível da Comunidade Europeia”. Em breve, haverá também uma
“página no facebook para amigos do Mercado do Bolhão”, onde todas as pessoas que estejam
solidárias com a causa, poderão participar, ajudando e divulgando esta nobre causa da
restauração do mercado centenário do Bolhão.
Por esta altura já o sol vai alto, são 11h30min. A banca de peixe da Dona Alice e da
Dona Ana Maria vai-se esvaziando, o cheiro a pão já não é intenso, a Dona Maria Teresa já tem
as encomendas dos arranjos florais todas feitas. Entretanto a Dona Emília sai apressada com
duas sacas cheias de legumes. O Restaurante do costume está à espera dos habituais legumes
frescos e portugueses.