Modelo: Susana Sousa
Foto: Do Mero Acaso
Edição: Catarina

Sou muito mais do que vês. Mas nem sequer o queria ser. Podia ser exactamente como tu me pintas: com varias cores alegres, com movimentos rápidos e sorriso nos lábios. Sabes nem sequer me importo quando dizes que não sei falar a serio, a verdade é que a seriedade tem pouca ou nenhuma piada, é um lugar cinzento cheio de protocolo. Gosto dessa ideia que tens de mim, mas gostaria muito mais se tivesses razão.  Não, não vivo numa anarquia de sentimentos histéricos e sorrisos a rodos. Não tenho o peito cheio de alegrias simplesmente porque me rio de tudo. As asas que vês não são minhas. Fazem parte destes ornatos de encenação.   E quando o pano cai, as cadeiras ficam vazias, saio de cena com os pés descalços e as mãos cheias de nada. Caminho por ruas desertas e húmidas, o ar é gélido e está escuro. Chego a casa, a porta foi maltratada pelo tempo, assim como eu, mas ela nunca se queixou metade daquilo que já me queixei. Então chego ao meu quarto. As paredes pintadas em azul e cor-de-rosa não reflectem em nada o que lá se passa. É um lugar frio e não muito acolhedor. Nunca tenho sonhos bonitos, sou acorrentada com frias e pesadas correntes que não me deixam mexer um só milímetro. Os olhos estão cravados no tecto. O sangue esfria. As lágrimas aparecem. E fico horas assim, a sufocar, todos os dias. São as asas que não existem que me tapam as marcas deixadas pelas correntes. É o tu pensares que sou feliz que me faz esquecer, todos os dias, para onde vou todas as noites. Não sou quem tu pensas que sou. Mas que eu sou nem eu sei.

4 comentários :

  1. esquece as falsidades. a verdade é que eu te apanhei no teu melhor momento! fantástico, fantásticas (nós).

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